Rio Croa - água escura que espelha a beleza do Acre

Rio Croa: água escura que espelha a beleza do Acre

 

 As águas escuras do Rio Croa e os quase três mil hectares que o rodeiam guardam fauna e flora exuberantes, junto a uma comunidade de 52 famílias, que escolheram viver em uma das florestas de maior beleza do estado. O que antes fora um seringal produtivo transformou-se num projeto comunitário, aliando a tradição acreana com uma economia moderna, baseada no turismo e na natureza como qualidade de vida. Há mais ou menos 12 anos começou um processo de discussões comunitárias que geraram amplitude para os avanços sociais e de infraestrutura da área. A comunidade já teve por alguns anos um Centro de Medicina da Floresta, lutou pela criação da Reserva Extrativista Croa-Valparaíso no Vale do Juruá, que infelizmente não ocorreu, e, em 2011, comemorou a chegada do Luz para Todos em 45 casas. Atualmente a batalha resultou na regularização das terras pelo Instituto de Terras do Acre (Iteracre) e na criação de infraestrutura turística que beneficiará os moradores. Próximo à zona urbana de Cruzeiro do Sul, o rio pode oferecer aos visitantes paisagens, contato com o saber da floresta, além da simpatia de seus moradores a cada volta de suas águas. Irene Chaves de Melo, 56 anos, abre as portas de uma pequena pousada para visitantes, ao lado de sua casa, entre o rio e a floresta. Durante o café da manhã, almoço ou jantar a melhor coisa a se fazer é conhecer a história dessa mulher, viúva de um ex-seringueiro, conhecedora do rio e um exemplo da vida cabocla na Amazônia. irene-chaves-croa-arison-jardim “Me casei lá no [Rio] Gregório e depois de um ano, com 18 de idade, viemos para o Croa”, começa a contar, sentada ao lado da vela, esperando a eletricidade voltar. Amazonense, nascida no Campinas, abaixo do município de Guajará, Irene diz com a voz tímida, carregada de sentimento pela atual morada: “Eu tenho pena de ir embora, porque gosto daqui”. Finaliza a conversa com tom nostálgico, lembrando nos dedos as oito únicas famílias que moravam quando chegou, algumas das quais ainda permanecem ao longo do rio de água escura e profunda.

 

 O prazer de visitar e sempre voltar Após um longo estirão do rio, em frente a uma grande volta, à esquerda é possível avistar uma casa e uma canoa toda enfeitada com brasões do time do Vasco da Gama. A morada é de Adildo Cruz, conhecido como Coco, 48 anos de vida e oito morando no Croa. Ao seu lado, na criação dos cinco filhos, está sempre sua esposa Maria Helena Siqueira, 37. A renda da casa é alimentada pelo programa social Bolsa Família e pelos serviços de Coco e seu filho Flávio, que juntos exploram e conhecem bons pedaços da floresta que rodeia o rio, trilhas, locais de extração de açaí e outros bens da mata. Além de subir em árvores, atravessar caminhos ao longo de horas na floresta nativa e de realizar a pesca em locais isolados e distantes da comunidade, a família apresenta outra característica da vida cabocla amazônica: a humildade e simpatia em receber quem chega a seu porto. coco-croa-arison-jardim Quem visita o Croa e quer mais aventuras mata adentro, é só procurar seu Coco. Por alguns anos foi o último morador do rio, em uma localidade mais próxima do Rio Juruá que da BR-364. Coco descobriu o Croa em um passeio com amigos, quando muitos ainda vinham pescar em suas águas – hoje os moradores não permitem mais. Depois de anos trabalhando em Rodrigues Alves, resolveu com a esposa se mudar de vez para o rio que tão bem o recebera. Com o cigarro de porronca na mão, diz sem titubear: “Eu não troco esse Croa por nada”, e logo é complementado pela esposa: “Aqui a gente trabalha pra si, tem banana, açaí, arroz, milho e mandioca”. A água que espelha o Acre A região é um espelho da história do Acre, passou da exploração da borracha para a criação de gado. Em seguida começou a se gerir e optar pela preservação ambiental em busca de um bem-estar convivendo com a floresta em pé. Atualmente a base da economia é a agricultura familiar, além da experiência com o turismo em algumas das casas. Uma das culturas mais fortes do Juruá é farinha de mandioca. Nesse rio não seria diferente, e de longe é possível ver uma família inteira no processo da farinhada (preparo da farinha). Alguns a beira de um tacho quente na torra e outros tirando, descascando e carregando pesadas quantidades do tubérculo. Alessandro de Lima, de 25 anos, comanda a torra em uma margem, na outra é Arismar Oliveira, o Nêgo, 32, que carrega a mandioca enquanto outros três amigos descascam. “Tudo essa terra do Croa dá, só que tem a época de plantar. Eu planto macaxeira, milho, arroz”, diz o produtor e estudioso da natureza, Jorge Nunes, que aos 59 anos conta como chegou ao local em que vive há 20. “Nasci e me criei no Rio Liberdade. Um dia meu pai, que era índio, veio a essa comunidade, logo vim trabalhar na roça”. Junto ao trabalho pesado, Jorge encontrou algo mais em seus hectares de terra, a qualidade de vida para quem convive com a floresta. “Passei cinco anos sem desmatar nem plantar nessa área”, diz apontando para a área verde que rodeia sua e outras três casas, de seus filhos. “Eu já criei gado também, mas isso não deu certo, isso é criação de gente rica”, continua a conversa, rindo. Se há uma qualidade no Croa é a facilidade de encantar quem chega ali. Jorge não desmente e diz: “Me sinto até ruim quando tenho que sair daqui. O Croa é bom, bom mesmo, acho o paraíso”. A referência paradisíaca não é ouvida uma vez ou outra. A professora Francisca Barros, 61 anos, também reivindica seu éden. “Aqui a gente trabalha em paz, as pessoas são muito amigas da gente”, revela. Com o peixe no anzol, lembra que o seu primeiro trabalho foi na escola estadual da comunidade, em 1982, e desde então aquele rio não sai mais de seu coração: “Sempre gostei daqui, é tipo o paraíso, sabe… É paz”. Vitória Régia Uma das mais famosas lendas indígenas brasileiras conta que uma índia chamada Naiá apaixonou-se por Jaci (a Lua), que brilhava no céu, iluminando as noites. Nos contos de pajés e caciques, Jaci descia à Terra para buscar alguma virgem e transformá-la em estrela e lhe fazer companhia. Naiá, ouvindo aquilo, quis também virar estrela para brilhar ao lado da Lua. Jaci, vendo o sacrifício da índia, que havia se lançado ao fundo e se afogado, resolveu transformá-la numa estrela incomum. Naiá virou a Vitória Régia, a grande flor amazônica de águas calmas que só abre suas pétalas ao luar.

 


Fonte: http://www.agencia.ac.gov.br/

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